Enem 2017: professora faz análise do resultado da Redação

Em meio a quase 5 milhões de candidatos, apenas 53 estudantes conseguiram tirar nota máxima na redação do Enem 2017, que teve como tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Das 4.725.330 redações corrigidas, 309.157 tiveram nota zero. O blog Edson Machado conversou com Amanda Lima, professora de Redação do Colégio Galois.

Nota do Enem 2017 é divulgada

Como a senhora avalia o resultado?

O gráfico acima disponibilizado pelo INEP nos mostra algumas informações acerca do decaimento das notas mil nas redações ao longo dos anos (2014-2017). Um indicativo, que pode ser considerado, é de que os corretores, cada vez mais, se especializam. Além disso, a temática também pode ter sido a responsável pela diminuição da quantidade de redações nota mil. Não só por surpreender pela especificidade, mas também por trabalhar informações relevantes para o Brasil, para a área educacional, pois vários candidatos se questionaram, por exemplo, se surdez e deficiência auditiva eram a mesma coisa, ou utilizaram essas informações como sinônimas por desconhecimento. A Constituição Federal, inclusive texto motivador da prova, garante direitos aos surdos, então, por que não temos intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em todas as escolas, estabelecimentos públicos, universidades, faculdades, escolas? Questionamentos como esses seriam interessantes para demonstrar a fragilidade do sistema educacional brasileiro que, apesar de universal, essa máxima restringe-se à legislação e não abarcaria os surdos, por exemplo, na nossa realidade. Alguns candidatos também confundiram termos da deficiência visual, como o termo braile e trouxeram-no para a realidade dos surdos o que também ajuda a enfraquecer a cadeia argumentativa de quem a utiliza, já que, novamente, o desconhecimento do assunto ajuda a criar estratégias falaciosas e inexistentes.

Este ano, destacou-se o aumento de redações que fugiram ao tema. O que fazer para evitar erros comuns como este?

Linguisticamente falando, a escrita faz parte de um processo que envolve uma série de elementos, como questões discursivas e sociais, os quais têm como produto o texto, a redação. Escrever é um processo e acredito que essa perspectiva oracular da redação acaba deixando lacunas sérias quando o tema que cai é algo que não tenha sido trabalhado previamente. Os 5,01% de fuga ao tema dos 6,5% do total de redações que receberam nota zero foi o motivo mais relevante dentre os citados para a nota do Enem 2017, em seguida: prova em branco (0,80%), texto insuficiente (0,33%), parte desconectada (0,17%), não atendimento ao tipo textual (0,11%), cópia do texto motivador (0,09%), outros motivos (0,03%) foram os dados divulgados pelo Inep. Esse erro da fuga ao tema, por ainda ser bastante comum, é reflexo da falta de leitura dos textos motivadores e sobretudo da interpretação. O Brasil é um país que lê e escreve pouco. A leitura dos textos motivadores ajuda na construção de um direcionamento que o candidato precisa ter diante do tema escolhido pela banca. Talvez, a melhor escolha seja essa para entender o que a prova solicita como posicionamento a ser defendido. Outra questão importante é entender que escrever requer uma reflexão, uma construção, um processo e não algo que seja produzido mecanicamente.

Como o estudante pode melhorar seu estudo e fazer uma boa redação?

Infelizmente, os preparatórios e as escolas têm optado, muitas vezes, por escrever muito, mas nem sempre isso consegue sinalizar o que o candidato precisa para a construção de uma escrita reflexiva e que alcance notas altas. Quantidade não é sinônimo de qualidade. É preciso rever o formato das aulas de redação para que elas sejam mais eficazes. É importante introduzir leitura aliada ao trabalho de escrita/alfabetização comprometido, desde a primeira infância, com a construção de alunos que sejam leitores e escritores. Algo importante para alunos que escreverão futuras redações do Enem é aprimorar a escrita, por meio de temas antigos, procurar provas que trabalhem vários gêneros textuais, como os exames da Unicamp. Isso ajuda o candidato a escrever em qualquer hipótese e não acerca de um tema previamente estudado, até porque a escrita é assim como elucidou Heráclito: “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”. A escrita, mesmo de um tema que seja feito anteriormente, não é a mesma, pois o indivíduo já se modificou ao longo dos dias, dos meses depois de ter treinado. Escrever é um ato que implica mais em autenticidade e criatividade do que em mecanicidade.

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