A reforma do ensino médio e o futuro do mercado de trabalho

Edson Machado

O mercado de trabalho está em transição, pede profissionais ágeis e flexíveis, capazes de realizar múltiplas funções, com formação de pensamento crítico, adaptabilidade, liderança e consciência sociocultural. A palavra de ordem é produtividade. E neste caminho, desenvolver habilidades para criar e interagir, não só com as máquinas, mas também com a coletividade humana, deverá se tornar um ponto chave no currículo educacional.

Diante da crise econômica e política que vivemos, recessão e aumento do desemprego, discussões sobre um novo modelo de carreira pede espaço de urgência no plano educacional. Hoje, o profissional disputado pelas organizações é o que consegue usar as novas tecnologias, ser mais humano, realizar multitarefas e ter base para se reinventar em um mercado em frequente mudanças. Cabe aqui ressaltar o conceito de sociedade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde o conjunto de relações e dinâmicas do nosso meio contemporâneo se pauta pela sua fluidez, volatilidade e flexibilidade. Trata-se da individualização do mundo, em que o sujeito agora se encontra “livre”, em certos pontos, para ser o que conseguir ser. Investir em novos conhecimentos, habilidades, culturas, aprender a trabalhar em grupo e ser empreendedor são algumas das características que já estão sendo exigidas neste universo. Mas como essas ideias dialogam com a reforma do ensino médio? Irá a nova proposta colaborar para a construção desse trabalhador de um futuro tão próximo?

A reforma do ensino médio, juntamente com a definição dos conteúdos curriculares mínimos, são as duas questões mais presentes nos atuais debates sobre a educação brasileira. A iniciativa tem como enfoque o desafio da profissionalização, daí  que se faz necessária uma definição de conteúdos amplos e diversificados para abranger a miríade de ocupações no mercado de trabalho. No entanto, há pouco cuidado na adequação do sistema educacional para ajudar na superação do crescente desemprego. Enquanto a rede de ensino médio do país absorve hoje cerca de 8 milhões de matrículas, com tendência a crescer num ritmo superior ao do ensino fundamental em suas séries finais, a massa fora do mercado de trabalho, em 2017, chega a 14 milhões de pessoas, ou seja, 40% maior do que a capacidade de matrícula da rede de ensino médio. É claro que nem toda essa população precisará ser absorvida pelo sistema educacional, mas pesquisas recentes indicam que em torno de 20% já estão buscando oportunidades de requalificação ou de adaptação às novas exigências do mercado. É de notar também que da matrícula total no ensino médio, 20% são estudantes do noturno, isto é, alunos que possivelmente já estão ocupando vagas no mercado de trabalho. Esses números sugerem que, dependendo da agilidade com que a rede de ensino se adapte para implantar a modalidade de formação profissional, ela já encontrará uma demanda ávida por aproveitá-la. Ou seja, dado que a média de idade dos desempregados é superior a faixa etária da atual matrícula, as metodologias e a didática dos programas deverão ser adequadas o quanto antes.

É neste cenário repleto de dúvidas sobre sua implementação que o novo ensino médio continua avançar no País. O caráter para uma mudança no sistema educacional brasileiro, de fato, é necessária. Um levantamento realizado pela ONG Todos Pela Educação com base nos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra uma realidade preocupante: entre as crianças e jovens brasileiros que estão fora da escola, cerca de 62% têm entre 15 e 17 anos, faixa etária que deveria estar cursando o ensino médio. Entre as razões que levam a estes resultados estão a qualidade do ensino, o currículo engessado – que não dialoga com o mundo do jovem -,  a falta de professores preparados para os conteúdos, além de escolas sem a mínima infraestrutura adequada. A principal crítica sobre como a reforma do ensino médio vai atender a demanda do mercado de trabalho está justamente nesta linha tênue entre a modernidade líquida e a sólida, à medida que esta nova proposta reduz ou retira a oferta de disciplinas tradicionais e importantes para uma formação que favoreça o perfil desse novo trabalhador.

 

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