Origem e peculiaridades da pesquisa de fenômenos sociais nas ciências com o uso de grupos focais

Ensino Superior Unicamp

Uma busca por “focus group” e “research” no Google (21/4/2016), provocando uma interseção entre os dois termos entre aspas, retornou 9,29 milhões de documentos. Dentre esses milhares de retornos, surgem diversos artigos científicos que expõem o uso de grupos focais como fonte de dados e que permitem um aprofundamento de fenômenos sociais – por exemplo, no contexto da produção científica, da educação e gestão em ciências.

Um estudo pela American Association for the Advancement of Science (AAAS) utilizou grupos focais para coleta de dados sobre aspectos sociais, éticos e institucionais sobre, por exemplo, a profissão do cientista. Em 2010, a AAAS publicou o relatório “Defining the right to enjoy the benefits of scientific progress and its applications: American scientists’ perspectives”, para o qual foram conduzidos 16 grupos focais, com um total de 145 participantes. Os autores do relatório descrevem que o cerne do estudo “foi explorar como os próprios cientistas definiriam o direito de desfrutar dos benefícios do progresso científico” e que “a força do tipo de análise fundamentada em pequenas amostras de dados qualitativos cuidadosamente coletados e usados neste estudo é a sua capacidade para gerar teorias de significado e motivação que estão abertas para testes posteriores com amostras maiores…” (AAAS, 2013).

Os estudos mencionados são apenas uma pequena demonstração da permeação dos grupos focais na pesquisa qualitativa, que são uma fonte importante de dados em estudos sociais da ciência. Entretanto, os exemplos de aplicação dos grupos focais na pesquisa são inúmeros e crescentes e desafiam fronteiras disciplinares, metodológicas e epistemológicas. O que cada vez mais valida a importância desse método de coleta de dados é o conhecimento acumulado ao longo de várias décadas, por tantos pesquisadores, com diferentes objetos de estudo. Mas de onde veio o grupo focal? Quais as peculiaridades dessa técnica?

De onde veio o grupo focal?

Segundo Krueger (2002), o início dos grupos focais ocorre durante a Segunda Guerra Mundial, quando cientistas sociais realizaram entrevistas não-diretivas com grupos, tendo como base estudos feitos há mais de uma década anterior ao conflito. Porém, Powell e Single (1996) sinalizam indícios de uso de grupo focal na década de 20, “quando foi usado como uma técnica de pesquisa de mercado”. Morgan (1996) também destaca que os primórdios do grupo focal estão intimamente atrelados a registros sociológicos na década de 20, com o uso de entrevistas em grupo para a coleta de dados.

Mais tarde, na década de 40, o sociólogo Robert Merton fora um dos primeiros cientistas a fazer uso de grupos focais como metodologia de pesquisa. Data de 1946 a publicação do artigo “The focused interview” (Merton; Kendall, 1946), que, em 1987, o próprio Merton reedita fazendo uma comparação com o uso do grupo focal na área de marketing. Justamente na década de 80, as ciências sociais redescobriram a técnica do grupo focal, assim como os estudos de Merton e de outros pesquisadores sobre o tema. No trabalho publicado em 1946, Merton e Kendall fazem uma análise das entrevistas conduzidas pelo Bureau of Applied Social Research com grupos inseridos em estudos sobre os efeitos sociais e psicológicos da comunicação de massa. Na visão dos autores, é possível identificar um tipo de entrevista inserida no contexto de pesquisa oriunda das experiências desenvolvidas pela equipe do Bureau. Uma década após a publicação do artigo, Merton, Kendall e Fisk lançam o livro The focused interview: a manual of problems and procedures, editado em 1956.

Ao longo das décadas, a utilização da técnica foi ganhando aplicação em diversas áreas de pesquisa. Segundo Carlini-Cotrim (1996), “na área de saúde, o grupo focal tem sido mais consistentemente usado a partir dos meados dos anos 80… praticamente inexistiam estudos publicados até 1984”. Contemporaneamente, essa “entrevista focada”, como definida por Merton e Kendall (1946), vem sendo utilizada como técnica de pesquisa em diversas áreas, como já destacado na seção anterior, incluindo marketing.

Quais as suas principais características e pressupostos?

Merton e Kendall (1946) chamam a atenção para as características que diferenciam o grupo focal de outras técnicas. Uma delas é o fato de esse tipo de dinâmica ser focada nas experiências subjetivas dos participantes que foram [são] expostos às situações/problemas a serem analisados. Segundo Kitzinger (1994), o grupo focal é uma forma de entrevista com grupos, baseada na comunicação e na interação. No entanto, a literatura aponta diversas e sofisticadas definições para grupo focal. Sob a ótica de Powell e Single (1996), trata-se de grupo de indivíduos, selecionado e estruturado por pesquisadores, com o objetivo de discutir e comentar, a partir de experiências pessoais, o tema objeto da investigação. Segundo os dois autores, como técnica de pesquisa, o grupo focal entende a discussão interpessoal como um instrumento para obter uma riqueza de detalhes sobre experiências complexas do indivíduo, com base em suas ações, crenças, atitudes, percepções etc.

Gibbs (1997) reforça a pluralidade de definições sobre grupos focais, mas ressalta que, apesar de a dinâmica envolver entrevistas, há uma clara diferença entre grupos focais e entrevistas em grupo. A autora comenta que, na entrevista em grupo, vários participantes são perguntados ao mesmo tempo; porém os participantes respondem a questões mais diretamente ao pesquisador (seguindo um dado roteiro), o que seria mais marcante do que a interação dentro do grupo. Já no grupo focal, o mais importante é estimular a interação entre os participantes a partir de um tema proposto pelo pesquisador. Tal característica fundamental é peculiar, oferecendo uma perspectiva diferenciada exatamente por essa interação que é provocada pelo pesquisador (Morgan, 1996; Barbour; Kitzinger, 1999).

Para o pesquisador, mais do que enriquecer a coleta de dados a partir do estímulo da interação dos participantes, a utilização do grupo focal permite ir além da análise do conteúdo expresso por esses participantes. Gatti (2005) descreve que, ao se utilizar da técnica do grupo focal, há interesse não somente no conteúdo que as pessoas pensam e expressam, mas como elas pensam e por que pensam. Como técnica de pesquisa qualitativa, o grupo focal é largamente utilizado em áreas como educação e saúde, sendo instrumentais para o diagnóstico, levantamento de problemas e planejamento de ações (Iercolino e Pelicioni, 2001). Powell e Single (1996) indicam o uso da técnica, por exemplo, na investigação de tópicos como experiências em partos e questões referentes à prática geral da medicina.

Atualmente, o grupo focal está inserido em um conjunto de métodos de coleta de dados cuja utilização é muito comum, sob diversas configurações, no âmbito das ciências sociais (Powell; Single, 1996). Morgan (1996) chama ainda a atenção para que a técnica do grupo focal confere eficiência à pesquisa quando usada unicamente ou combinada a outras metodologias de pesquisa. A opção pelo uso de grupo focal como método de pesquisa está relacionada a uma gama de variáveis. O uso desse tipo de coleta de dados beneficia pesquisadores cujo construto de pesquisa pode ser melhor analisado quando atitudes, sentimentos e crenças dos participantes são amplamente expostos e discutidos com outros participantes. Portanto, são muito úteis quando a linguagem e/ou cultura dos integrantes do grupo selecionado tornam-se congruentes com temas explorados pelo pesquisador. Morgan e Krueger (1993) explicam que o uso de grupos focais pode se tornar particularmente útil, por exemplo, quando há diferenças de poder entre participantes, quando a linguagem e a cultura que caracterizam o cotidiano dos participantes é objeto de interesse para o pesquisador e quando se deseja avaliar o grau de consenso sobre um determinado tópico.

Outra característica importante do grupo focal, segundo Gibbs (1997), é a flexibilidade para os períodos de utilização durante as etapas da pesquisa: podem ser empregados em fases preliminares ou exploratórias de um estudo, para detalhar um tipo de atividade, avaliar impactos ou gerar novos temas de investigação. Na condução dos grupos, determinar os passos metodológicos para a coleta de dados e a forma de atuação do moderador são cruciais. A técnica flui de maneira mais adequada quando é possível definir bem o problema a ser avaliado e escolher um facilitador/moderador adequado.

Neste sentido, o moderador possui um papel-chave na obtenção dos dados. Como pressuposto de uma abordagem qualitativa, o mesmo não se apresenta como mero inquiridor (Masadeh, 2012). Ao contrário, tem por função estimular a discussão, estreitar as relações dos participantes com o tema proposto e, de fato, dar espaço ao desenvolvimento de diferentes ideias que surgirem ao longo da conversa. Outro ponto que merece destaque, ao discutir o papel do moderador em grupos focais, é sua postura frente aos objetivos da pesquisa. O cuidado em não ser tendencioso deve ser máximo no momento da mediação das discussões (Prince; Davies, 2001). Favorecer um determinado ponto de vista, em detrimento a outro, pode comprometer a descrição do problema abordado.

Um outro fator fundamental é a seleção de participantes. Dependendo dos objetivos, eles devem possuir vivência com o tema a ser discutido, propiciando riqueza na troca de informações. É recomendável ainda planejar o número de participantes, o processo de seleção e o tempo de duração da sessão de grupos focais. De acordo com Krueger (2002), a quantidade adequada por sessão é de cinco a dez participantes, embora não seja essa uma recomendação rígida. Por outro lado, a composição de grupos focais nem sempre é uma tarefa facilmente realizada. Pode não ser tão simples obter grupos com representatividade efetiva (Gibbs, 1997). O recrutamento adequado de participantes é um fator que pode ser decisivo para o delineamento da pesquisa.

Entretanto, talvez o planejamento do grupo focal, que inclui a definição das questões a serem postas e encaminhamentos ao longo da discussão, seja a fase mais trabalhosa. Além desse aspecto, há uma demanda, em boa parte dos casos, para a submissão de protocolo de pesquisa a um comitê de ética na pesquisa em humanos. Também deve-se planejar a organização de recursos técnicos para a gravação das sessões, a seleção de um local adequado para a realização dos grupos e da contratação de profissionais para transcreverem e analisarem os dados gerados (Krueger, 2002).

Leia artigo completo e referências em Ensino Superior Unicamp

Alencar, F. R.; Campos; D. F.; Carvalho, D. B.; Ferreira, R. K. R.; Firme, R. A.; Leboutte, C.; Liskauskas, S. F.; Menezes, P.; Neves, R. S.; Ribeiro, M. D.; Oliveira, D.; Oliveira, P.; Paixão, S. O.; Pedrotti, M.; Pinheiro, L.M Ronchi, V. C. L.; Santos, T. S. R.; Serra, D. S.; Silva, C. M; Silva, R.C.; Soutelino, F. G.;Telles, E. G.; Victorino, L. C. O; Zanini, V. R.

Programa de Mestrado Profissional em Educação, Gestão e Difusão em Biociências (MP-EGeD), Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Brasil.

 

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