Livro analisa as entrelinhas das redações do Enem

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o “bicho-papão” costuma ser a redação, que é a única questão que visa a avaliar a produção escrita dos candidatos, exigindo a elaboração de um texto dissertativo-argumentativo a partir de um tema de ordem social, cultural, científica ou política e de textos de apoio apresentados na proposta. Dentro de um contexto sociocultural amplo, as redações dos participantes do Enem apresentam grande valor de pesquisa, visto que são reveladoras não apenas das “competências escritoras” dos concluintes do ensino médio para a produção de dissertações argumentativas. Mas também os sujeitos por trás delas, as vozes dos jovens do ensino médio brasileiro: O que escrevem? Como escrevem? Para quem escrevem?

Pensando nessas questões, Nathália Rodrighero Salinas Polachini realizou uma pesquisa sobre materiais didáticos e redações do Enem, que resultou na dissertação de mestrado Redações do Enem: Réplicas ativas nas múltiplas vozes, apresentada em dezembro de 2014, no Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com orientação da professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da faculdade, Maria Inês Batista Campos. No final de março deste ano, o trabalho foi publicado em um livro com o mesmo título, pela Editora Porto de Ideias, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na publicação da obra e também durante o período da pesquisa.

O interesse da pesquisadora pelas redações do Enem surgiu da necessidade de trabalhar melhor os elementos da redação focando o repertório e a autoria, a partir da experiência obtida como professora em sala de aula no ensino público e privado, e para saber como o jovem do Brasil está escrevendo, sem usar somente os parâmetros de avaliação do Enem. A autora teve como ponto de partida da sua pesquisa 2.720 redações da edição do Enem 2012, cujo tema proposto foi O movimento imigratório para o Brasil no século XXI, das cinco regiões brasileiras, cedidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e que vieram escaneadas mostrando a letra do candidato no exame, “o que revela a identidade, uma marca de quem a pessoa é”, frisa Nathália. Depois, ela estabeleceu uma metodologia e selecionou 121 redações. Porém, Nathália explica que “o livro não é um manual de como escrever uma boa redação para o Enem”, pois, ancorada na perspectiva dialógica da linguagem e nos estudos sobre letramentos, a obra buscou compreender cada texto como uma réplica à proposta de redação e aos discursos que dela ecoam, sinalizando que o trabalho com a escrita não está desvinculado das práticas letradas dos alunos e de seus repertórios sociais, culturais e linguísticos.

Organização dos capítulos

O livro contém quatro capítulos. No primeiro, a autora articula as reformas do ensino médio com as mudanças operadas nos vários editais do concurso, fazendo uma espécie de revisão crítica dos princípios teóricos do sistema de avaliação. Este capítulo apresenta ainda um quadro detalhado com o período histórico do início do Enem até o ano das redações estudadas: 1998-2012, o crescente número de inscritos, os diferentes presidentes do Inep, os ministros da Educação, assim como os presidentes da República.

O segundo capítulo se ocupa do detalhamento da perspectiva teórica sobre o enunciado concreto e o discurso citado à luz da teoria do filósofo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) e o Círculo e as noções de letramentos à luz da teoria do pesquisador Brian Street (1943). No terceiro, há destaque para as orientações metodológicas usadas para a análise das redações. “As redações são tratadas aqui como enunciados concretos. O texto escrito do candidato do Enem torna-se revelador de um sujeito com interação com outras vozes sociais”, destaca a pesquisadora no livro.

O último capítulo analisa as 121 redações selecionadas, abordando como os candidatos dialogaram com o tema pedido na redação. Sobre esta parte, a orientadora da pesquisa e professora da FFLCH, Maria Inês, ressalta que, neste contexto, “as redações, abordadas sob a perspectiva dialógica, deixam de ser objetos para correção e atributo de nota, mas se transformam em interlocutores vivos; condensam posicionamentos de cidadãos e assumem pontos de vista, marcando um evento decisivo: o ingresso à universidade”. O livro não é dirigido só aos pesquisadores e professores da área de Letras, mas também aos interessados em entender mais sobre o jovem brasileiro e o que está por trás do texto dele, “um sujeito que está dialogando e dando suas opiniões, e ver os discursos que do seu texto ecoam”, destaca Nathália.

Fonte: Jornal da USP

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