Os efeitos da crise na educação brasileira

Edson Machado

O Brasil está passando por um momento difícil, com juros altos, aumento da inflação e poucos investimentos. E apesar de alguns especialistas estarem otimistas em relação a uma leve melhoria na economia do país a partir do segundo semestre de 2017, o fato é que os passos para sairmos dessa situação ainda são curtos.

O relatório Perspectivas Econômicas, apresentado este mês em Paris pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), também aponta uma visão preocupante sobre o Brasil. O documento, escrito em um tom negativo poucas vezes visto desde a eclosão da crise financeira internacional em 2008, chama atenção pelo temor em relação à imprevisibilidade que paira sobre a nação brasileira, bem como a economia mundial.

Além dos problemas econômicos e políticos, sabemos que essa crise também afeta nossa educação. Na contramão de resultados positivos que vimos nas últimas décadas – como o aumento de 27% para 51% de jovens estudantes (18 a 24 anos) em curso superior, entre 2001 e 2011 – o cenário atual é de instabilidade e incertezas. “O governo não está podendo fazer quase nada. Estamos em uma crise econômica, que é agravada por questões políticas. No caso da educação, isso afeta muito porque, antes da eleição, foi promulgado o Plano Nacional da Educação (PNE). Lá constam propostas muito boas e corretas, mas são caras e demandam investimentos. São 19 metas que dependem da vigésima, que prevê que até 2024 teremos 10% do PIB investido na Educação. Atualmente, estamos em 6%”, afirmou o ex-ministro da educação, Renato Janine, em recente entrevista para a Isto É Dinheiro.

De acordo com Janine, nos últimos anos a sociedade entendeu que ela possui direitos, passando a ter uma quantidade de demandas gigantescas e justas. O problema é que, para atender essas demandas é necessário um crescimento econômico contínuo. “O Brasil está condenado a se desenvolver para fazer políticas sociais e melhorar a situação das pessoas. E a educação nem sempre é vista como prioridade”,  afirmou Janine.

Em entrevista para o site Escola Pública, o professor Carlos Roberto Jamil Cury, um dos maiores especialistas do país em políticas educacionais e direito à educação, afirma que a saída para este cenário pode estar na força da sociedade civil, que deve cobrar o que foi consagrado em lei, sobretudo quando a própria presidente da República anuncia que o lema deste quadriênio é Pátria educadora. “O PNE em vigor proclama a necessidade de um novo federalismo e conclama um órgão que poderá ter autoridade suficiente para pôr em marcha o próprio plano. É muito importante que a sociedade civil passe a cobrar seu cumprimento, os pais, a imprensa… Se ele não for adiante com tudo que se está falando a respeito de educação, de pátria educadora, dos resultados de avaliações… seria muito triste”, avalia o professor.

Além do esforço em garantir o cumprimento do PNE, a situação da crise no Brasil escancara outros problemas na nossa educação, como falta de verbas para os programas educacionais do governo, o precário sistema de alfabetização, base escolar ruim, a falta de incentivo ao ensino técnico e o investimento do capital estrangeiro em grandes conglomerados de instituições privadas de ensino superior. Além da pasteurização dos conteúdos didáticos, um dos reflexos deste último cenário é que esses grandes grupos educacionais acabam priorizando o lucro ao invés de educação de qualidade. Com isso, são as instituições públicas de ensino e as menores instituições privadas quem mais sofrem nesta travessia em busca da terra prometida.

Tentando abrir esse Mar Vermelho na educação, foi apresentado em Goiás um projeto que propõe a co-participação de organizações sociais na administração de escolas públicas estaduais. A história levanta uma série de discussões que serão destacadas em breve aqui no blog.

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