Christophe Charle diz que educação é um investimento

A comissão UnB.Futuro realizou na última sexta-feira (12) a terceira Sessão Pública de 2015, com o historiador francês Christophe Charle. Com o tema “A crise das universidades no modelo neoliberal”, a conferência apresentou análises dos modelos de financiamento das universidades e as principais tendências de transformação do ensino superior internacional desde 1980. À mesa com Charle, estiveram o reitor Ivan Camargo, o decano de pesquisa e pós-graduação Jaime Santana, os professores Carlos Benedito – do Instituto de Ciências Sociais – e Fernando Oliveira Paulino – da Faculdade de Comunicação – além do professor emérito Isaac Roitman.

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Ao abrir a sessão, diante de um auditório lotado, o reitor Ivan Camargo frisou a importância do debate, tendo em vista o cenário atual das finanças da educação superior no Brasil. Recentemente, o governo federal anunciou um corte de 30% no orçamento das Instituições Federais do Ensino Superior.

Charle refletiu sobre o papel histórico das universidades e como estas sofreram mudanças ao longo do recente processo de globalização. Destacou dois processos de massificação do ensino ocorridos no século XX. De acordo com ele, o primeiro emergiu nas universidades europeias, nas décadas de 1960, e ocorreu em economias já consolidadas a uma taxa de desenvolvimento sólida, porém não exponencial; e o segundo processo foi global, ocorrendo somente em 1980 com uma taxa expressiva nos países em desenvolvimento. Segundo Charle, o segundo movimento foi mais intenso, pois serviu para compensar os atrasos dos países periféricos.

Tamanha aceleração gerou aumentos de estudantes, logo, cresce também o orçamento das universidades. Assim as instituições de ensino têm de buscar recursos em diversas fontes para manter seu pleno funcionamento.

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Grande parte dos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) adota o modelo de financiamento público, onde o governo arca com a maioria dos gastos com a educação. Como exemplo do modelo neoliberal, no entanto, tem-se Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia cujas instituições de ensino superior têm grande financiamento do setor privado.

Segundo Charle, ao longo dos últimos trinta anos, em países onde o modelo de financiamento privado é adotado, os gastos universitários foram os que mais aumentaram, quando comparados com outros gastos como saúde, alimentação, ou habitação. No “modelo anglo-saxônico”, por exemplo, o financiamento público girava em torno de 74,5% em 1978 e 20 anos mais tarde correspondia a 55,6% do total das finanças.

Enquanto o aporte financeiro público diminuía, a quantia cobrada dos estudantes apenas aumentava. Entre 1981 e 1998 o aumento das taxas de admissão nos países que adotaram este modelo foi da ordem de 224%.

Neste modelo o custeio da educação é terciário, uma participação entre governo, setor privado e o estudante beneficiário. Então o saldo final das experiências neoliberais universitárias, segundo Charle, foi o progressivo endividamento dos estudantes. “Esse sistema agrava e amplia as desigualdades presentes na sociedade”, aponta o historiador francês.

Ainda segundo Charle, nos ambientes universitários surgiu uma forma de “neoliberalismo acadêmico” que atesta ser necessária a competição entre institutos, de modo que os vários departamentos dessas instituições de ensino findam rivalizando uns com os outros em busca de um maior financiamento. Nestes âmbitos, a disputa teria origem na distribuição desigual de recursos para cada departamento. E, conforme a lógica deste modelo, a reputação de uma instituição é fator importante para determinar seu sucesso na captação de recursos privados. Portanto a competitividade seria um estímulo para o desenvolvimento geral da universidade.

Ao fim de sua fala, Christophe Charle defendeu que “é preciso tirar lições do fracasso do sistema neoliberal” e que tal modelo não é universal, visto que no Brasil a experiência é mista entre pública e privada. Charle criticou também a forma como os governos determinam quanto de seus recursos públicos serão destinados à Educação e concluiu: “Os estudos são um custo para a filosofia neoliberal. Para mim a Educação não deve ser considerada como tal, mas sim um investimento”.

Para Dr. Edson Machado, o debate veio em boa hora. “É muito válida a iniciativa da Universidade de Brasília em trazer o professor Charle para discutir a questão das crises das universidades federais, tema mais que atual no Brasil. Recentemente, uma importante revista nacional até mostrou a decadência MATERIAL dessas instituições públicas. Além disso, vale ressaltar que o surgimento dos conglomerados do ensino superior também contribuíram para este cenário, porque eles acabam ocupando os espaços dessas universidades”, ressaltou Dr. Edson.

Mais informações: http://www.unbfuturo.unb.br/index.php/noticias/209-christophe-charle-diz-que-educacao-e-um-investimento

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