Aluno de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da UNB discute a construção da identidade do brasileiro no Instagram

Trabalho será apresentado em evento internacional

foto-10Inspirado pelos movimentos nas redes sociais, Paulo Almeida, aluno do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), segue na próxima semana para Braga, Portugal, para participar da Conferência Internacional Interfaces da Lusofonia, na Universidade do Minho, de 4 a 7 de julho. O estudante vai apresentar um trabalho de pesquisa, apoiado pela Finatec, em que ele analisa o comportamento do brasileiro no Instagram – um aplicativo que permite compartilhar fotos em várias redes sociais.

Fomos procurar o mestrando para ele contar um pouco sobre a apresentação de seu artigo O brasileiro no Instagram: uma identidade globalizada, escrito em parceria com sua orientadora, a professora Célia Ladeira Mota. O tema foi bem recebido pela bancada da  universidade portuguesa pois tocou em um ponto bastante inusitado: o mundo quer conhecer o novo brasileiro.

Para a pesquisa, foram analisadas 1.100 fotos no Instagram, de 28 de dezembro de 2012 a 2 de janeiro de 2013, ou seja, antes dos protestos ocorridos em todo o país e que ganharam repercussão nacional. “São muitas as transformações no Brasil. Veja o que está acontecendo durante a Copa das Confederações. De repente, o país conhecido como a pátria das chuteiras vai para as ruas protestar e pedir mudanças exatamente durante um grande evento de futebol. O que está acontecendo com o brasileiro? Que identidade é essa que ele quer construir? Que Brasil é esse que ele quer apresentar para os outros países?”, explica Paulo.

Quando surgiu a ideia de pesquisar a identidade do brasileiro no Instagram?

Quando assisti a apresentação do Brasil no encerramento dos Jogos Olímpicos em Londres, no ano passado, vi nas redes sociais que muitos brasileiros não queriam mais ser representados com os estereótipos de país do carnaval, do jeitinho brasileiro, sensual, etc… Tudo isso me chamou atenção. Percebi que alguma coisa estava acontecendo e quis entender um pouco a maneira como o brasileiro queria se representar para o “outro”. Então, fiz uma busca no Instagram com a hashtag “Brazil” com z, em inglês, para ver o que poderia encontrar e descobri coisas fantásticas.

O que você encontrou de novidade?

Que a elite móvel do Brasil não está preocupada em preservar a identidade nacional, muito pelo contrário, quer mostrar a todo o tempo que tem acesso à cultura, hábitos e produtos de outros países. De 1.100 fotos analisadas durante o período do estudo, o futebol, por exemplo, que sempre foi um símbolo do país, apareceu apenas uma vez. No lugar de caipirinhas, bebidas como champagne aparecem com mais frequência, além de muitos objetos de marcas conhecidas internacionalmente. A gastronomia também me chamou atenção quando vi, por exemplo, que batatas fritas do Mc Donald´s estavam sendo representadas como um prato típico brasileiro.

O que tudo isso significa?

Primeiro, um ponto que eu vejo como positivo, é que o brasileiro não quer ser reconhecido mais como o país do atraso, da pobreza, da corrupção, mas como um povo que está inserido no mundo e também tem o direito de ter educação, saúde e segurança. Basta ver as manifestações que aconteceram no país nos últimos dias.

Segundo, o brasileiro quer mostrar para o mundo que ele está globalizado. Que ele tem acesso à cultura e produtos de outros países. É claro que estamos falando de uma elite móvel, que tem acesso à internet e aplicativos de redes sociais, como o Instagram, com mais de 14 milhões de usuários no Brasil, mas essa elite está empurrando seus seguidores e causando um grande efeito.

O brasileiro está construindo ou perdendo sua identidade no Instagram?

Ele está construindo uma identidade cada vez mais globalizada, talvez porque a própria natureza do aplicativo permite isso, de ser uma rede social, que tem o objetivo de conectar todas as pessoas do mundo. Tem perfis de brasileiros no Instagram que não conseguimos identificar no primeiro instante a nacionalidade do usuário: Toda a mensagem é em inglês e os hábitos e produtos registrados nas fotos são de outros países. É o que eu chamo no estudo de “globalrepresentação”, onde o usuário usa uma linguagem universalmente conhecida para aumentar seu campo de comunicação e assim ganhar maior visibilidade e seguidores. Ou seja, o brasileiro não perdeu sua identidade, porque isso é algo forte, é cultura, tradição, tem raízes e é difícil de mudar de uma hora para outra. Mas é possível dizer que está acontecendo um deslocamento da identidade nacional, porém precisamos entender até que ponto isso é bom e/ou ruim. Estamos perdendo nossas tradições e identidade para uma comunicação globalizada? Quais os cuidados que devem ser tomados nesta representação? O Brasil do Instagram é real ou idealizado?

O artigo leva em consideração as reflexões feitas por Zygmunt Bauman, um estudioso dos efeitos da globalização. Ele explica que vivemos em ‘tempos líquidos’, quando as relações humanas estão cada vez mais flexíveis e que a importância dada aos relacionamentos em rede – seja pela Internet ou mais recentemente pelo Instagram – torna efêmeros todos estes contatos virtuais e cria comunidades voláteis, passageiras. Ao contrário das comunidades da modernidade sólida, que se agrupavam em torno de interesses comuns e duráveis, esse novo tipo de comunidade flexibiliza as identidades e as torna hibridizadas.

A nova representação do brasileiro nas redes sociais, como o Instagram, tem seu lado positivo e negativo. Positivo do ponto de vista de mostrar que o país está inserido em uma cultura globalizada, podendo ser visto e mais conhecido pelos outros. Por outro lado tem o fator negativo que descaracteriza o regionalismo, as tradições e o popular. A função deste trabalho é, no entanto, despertar uma discussão para o assunto.

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