O que o RUF (Ranking Universitá​rio Folha) acrescenta?

Por Edson Machado

 

Pouco depois do lançamento pelo jornal Folha de São Paulo de um ranking das universidades brasileiras, o RUF, esperávamos que ele seria objeto de um intenso debate nacional, mas não foi.

É verdade que já no dia seguinte à divulgação, 4 de setembro, o professor Rogério Cerqueira Leite, na seção Tendências/Debates, da Folha, publicou uma apreciação crítica bastante procedente sobre o assunto. No comentário de domingo, o ombudsman da Folha também mencionou que  a redação do jornal havia recebido cerca de 300 comentários, cujos conteúdos desconhecemos. Parece pouco, dada a relevância do tema.

Por que esperávamos um debate que não aconteceu? Por duas razões principais: primeiro, por que é a primeira vez que um órgão não governamental se impôs a realizar uma tarefa que antes era considerada privativa do Estado. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, isso já acontece há muito tempo. Nesses países, são os grandes jornais que fazem esse complexo exercício de avaliar o ensino superior, como o US News & World, nos EUA, e o Time, na Inglaterra.

Em segundo lugar, porque o RUF continua seguindo uma lógica que já devia ter sido superada: a de atribuir maior peso à pesquisa e só a metade ao ensino. Isto é muito importante para compor o índice global que determina a classificação da universidade no ranking, mas poucas instituições brasileiras podem ser consideradas centros de pesquisa, sendo assim, todas as demais ficam prejudicadas por este critério.

 

O fato de a avaliação ser concebida e executada por uma entidade não governamental minimiza muito a possibilidade de reações do tipo corporativista. Por exemplo, constatar – o que já era sabido – que as melhores universidades classificadas são as públicas (estaduais e as federais) espanca o velho discurso sindical de que essas instituições estão sendo sucateadas para abrir espaço para as instituições privadas.

É de esperar que uma entidade independente tenha mais liberdade e autonomia para atribuir valor ao objeto da avaliação. É claro que a mesma liberdade e autonomia se aplica a definições dos critérios e parâmetros da avaliação, e é neste ponto que se espera mais críticas e controvérsia.

A questão da valoração da pesquisa X ensino é crucial e, em grande medida, depende do nosso conceito de universidade.

A universidade existe para ensinar. A atividade de pesquisa, por mais relevante que seja, não supera a função de ensinar. A própria Folha, responsável pelo ranking, reconhece essa verdade fundamental em um editorial publicado na edição do mesmo dia da divulgação do RUF. No entanto, é fácil verificar que o ranking não se altera significativamente quando se exclui do índice global a parcela atribuída à pesquisa. Alguém açodadamente pode concluir daí que a boa pesquisa garante um bom ensino. Não será uma verdade a recíproca? Não será por isso que o constituinte preferiu tornar essas funções “indissociáveis” ? Essa ideia da “indissociabilidade” não estará superada, já que todos reconhecem que não é razoável pretender que todas as universidades mantenham uma atividade de pesquisa que seja relevante? Eis aí um bom assunto para discussão!

Mas, enquanto isso, na maior surdina, o Ministério da Educação propõe – e a presidente Dilma já encaminhou ao Congresso – um projeto de lei que cria o Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação do Ensino Superior!!! Parece que seria algo no estilo das agências reguladoras …

E lá se vai a experiência embrionária da entidade não governamental. É provável que, como as suas congêneres, a nova agência atue licitando para terceirizar suas ações, o que permitiria até o surgimento de outras entidades não governamentais. Vamos ver.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: