Universidades em greve e os 10%

Por Edson Machado

Novamente estamos assistindo ao espetáculo deprimente que é a greve de professores e funcionários das universidades federais. Este espetáculo vem se repetindo ano após ano. O mais triste é que a sociedade, em geral, não toma conhecimento do assunto. A manifestação contra o movimento fica restrita aos pais, que preocupados com o futuro de seus filhos, começam a chiar e a atribuir ao governo a culpa da greve. Mas como o número de estudantes nas universidades federais é pequeno, essa gritaria não chega a perturbar.

Ou seja, quando se analisa a situação como um todo, observa-se que os estudantes são os únicos prejudicados com a greve. Pois é sabido que os professores-pesquisadores, aqueles que realmente “fazem” a universidade, não param seus trabalhos. Apenas deixam de ministrar suas aulas. Até porque esses pesquisadores geralmente são beneficiados com bolsas, diga-se também, pagas pelo governo, a quem devem apresentar relatórios periódicos de suas pesquisas, haja ou não greve.

Também não é desprezível o número de professores que se aposentam em um cargo e voltam à ativa mediante novo concurso. Estes já estão “calejados” de outras greves de modo que são indiferentes a esta: não vai dar em nada, mas dão um bom descanso e, melhor ainda, descanso remunerado já que os dias parados não são descontados.

Os grevistas remunerados já deixaram claro que os problemas das universidades federais não se resumem a professores mal remunerados, afinal boa parte deles são profissionais com doutorado, trabalhando em regime de tempo integral, portanto no último degrau da carreira. Eles também reclamam das instalações precárias, laboratórios sucateados e superados, bibliotecas desatualizadas… E a lista continua… são outros itens que compõem a pauta dos males que os grevistas, com razão, pretendem corrigir.

Sem desmerecer a importância das reivindicações, seria interessante aplicá-las a rede privada de ensino superior. Nesta não há greves. Será porque as condições de trabalho já atendem o que os professores federais reivindicam? Não parece verossímil. No entanto, já testemunhei muitos casos de estudantes se transferindo de uma universidade federal gratuita para uma instituição privada pela simples razão de desejarem se formar no tempo normal, sem precisar esperar pelo fim da greve e talvez ter que adiar a formatura por pelo menos mais um semestre. Não me surpreenderia se professores das federais também se transferissem para universidades privadas, em busca de ambiente tranquilos para trabalhar sem ter que ouvir os “apitaços” dos grevistas.

O MEC contra-argumenta com o seu programa REUNI, que vem investindo na expansão e melhoria das instalações das federais. Ocorre que a maior parte desse investimento está sendo destinado a abertura de novos campus fora da sede – a chamada “interiorização” das federais – que resulta na abertura de vagas em novos cursos que por sua vez implica a contratação de mais professores. Mas, não se sabe bem por que, essas obras não andam, todos os cronogramas estão atrasados. Enquanto isto, as sedes…

Diante desse quadro, valeria a pena contrapor o custo do aumento na folha de pagamentos e o custo do investimento necessário para modernizar as instalações das universidades federais. Ou será que com os dez por cento do PIB a equação se resolve? Podem os grevistas esperar até 2020?

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