Educação: comércio sem fronteiras

Há poucos dias, o Simon Schwartzman divulgou no seu blog um artigo no qual comenta a crescente mercantilização do ensino superior nos Estados Unidos e a possível queda dos padrões qualitativos de ingresso. A questão já vinha sendo levantada desde o ano passado, como alertou Philip G. Altbach, diretor do Centro de Educação Superior Internacional do Boston College, em um minucioso artigo publicado no site Inside Higher Education – The World View.

Muitas universidades americanas – em geral as menores e menos qualificadas (colleges) – estão abrindo vagas para estudantes estrangeiros, como meio de pagar suas despesas. Os alunos estrangeiros pagam taxas e mensalidades diferenciadas (mais altas), quase sempre financiadas pelos governos dos países de origem. Algumas universidades europeias também estão apelando para esse recurso.  Outra estratégia para angariar receitas estrangeiras é abrir filiais no exterior ou terceirizar programas para universidades locais, algumas vezes utilizando plataformas de ensino à distância. Neste último caso, é comum que os cursos oferecidos não gerem créditos acadêmicos e, portanto, não conduzam a diplomas. Por isso mesmo, alguns países já tentam se proteger com legislações específicas, como o caso da Índia e China, que, junto com a Rússia e o Brasil, formam o bloco dos BRICs, países em desenvolvimento. Destes, apenas o Brasil não tem legislação sobre o assunto.

Em relação aos cursos à distância, deve ser mencionado que aqueles oferecidos por universidades renomadas costumam ser gratuitos mantendo, no entanto, a característica de cursos non-credit. Agora mesmo, Harvard e MIT (Massachusetts Institute of Technology) estão anunciando uma parceria com o objetivo de oferecer esse tipo de curso.

Bem, mas o que isso tem haver com o Ciência sem Fronteiras? Em primeiro lugar lembre-se de que um quarto das cem mil bolsas prometidas pelo programa será patrocinado pelo setor privado e não sabemos se haverá ou não interferência de agências governamentais que detêm experiência no assunto. A pergunta que se coloca é: para que tipo de programa e em quais instituições? As empresas seguramente estarão mais interessadas em cursos de formação tecnológica, que são cursos de graduação de curta duração. Portanto, nada haver com ciência, ainda que sejam importantes para o país, se garantida a qualidade.

No que se refere à pós-graduação plena ou do tipo sanduíche, sem menosprezar a experiência da CAPES e do CNpQ, sabe-se que essas agências não costumam interferir na escolha da instituição de destino do bolsista, quase sempre deixada a critério do estudante, que às vezes conta com a ajuda do seu professor orientador no Brasil. Algumas agências estrangeiras, com maior ou menor tradição, se oferecem para fazer essa intermediação – caso em que muitas vezes o bolsista só vai saber para onde está indo depois que chegar lá. Não é desprezível, por outro lado, o lobby a que estão sujeitas essas agências.

Por tudo isso é que o Schwartzman chama atenção para o apetite que algumas universidades estrangeiras têm em relação ao programa Ciência sem Fronteiras.

Edson Machado

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One Response to Educação: comércio sem fronteiras

  1. Isaias Frederick says:

    Cara, parabéns pelo artigo! Estava lendo sobre a educação como produto mercantilista e comicamente coincidiu com um fato que tenho testemunhado com certa proximidade: minha irmã é intercambista no CsF. Aprender nunca é demais!

    Forte abraço.

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